Minha Autoria
Tenho humildade suficiente para dizer que ainda não me conheço totalmente, mas posso dizer que posso parecer extramente simpática e extremamente ignorante, transparente e obscura, ser sua cura ou sua pior doença, estar totalmente em suas mãos e em menos de um segundo escorregar por entre os seus dedos,te surpreender e te decepcionar, te fazer feliz e te fazer sofrer, ser tudo aquilo que você deseja e de uma hora para outra não ter mais significado nenhum pra você, posso ser o copo meio cheio ou o meio vazio, depende dos olhos de quem vê.
Jéssica Freitas
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❝Moça, olha só o que eu te escrevi:
É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê!
Sei que a tua solidão me dói
e que é difícil ser feliz…
Mas, do que somos todos nós?
Você supõe o céu.
Sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar
e foi você quem desviou
com golpes de pincel.
Eu sei, é o amor que ninguém mais vê.
— (Além do que se vê, Los Hermanos)
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“Dentre todos os planos mal acabados, as multidões de bussolas quebradas, os olhares desviados, as fotos desfocadas, os amores sem linha de chegada, os trens sem data de partida, os precipícios sentimentais, os descasos humanitários, surgiu você. Dentre todas as datas marcadas, os carnavais acabados, as férias de mim, as paixões com seus fins, os bocejos de tédio, as semanas inacabáveis, os sorrisos escondidos, a beleza oculta da alma, a poesia de cada olhar e o amargo gosto do chorar, surgiu você. Dentre todos os conceitos ditados, os casais predestinados, o mundo parado, o olhar cansado, a rotina infeliz, o término gris. Dentre a humanidade desumana e o amor que ironicamente esgota-se de tanto amar, surgiu você. Com o esboço da perfeição e o rascunho dos defeitos mais comuns, que me pareciam mais os adjetivos mais incríveis, as virtudes mais apuradas e os olhos mais sorridentes. Com a aparência intimidadora, feito um diamante, que não se quebra, não se risca… Entretanto, valioso e límpido, diáfano e translúcido. Iluminador a cada meio sorriso, a cada olhar direcionado. Dentre todos os pesares, justificativas, direção falha, sorrisos foscos, surgiu você. Mudando conceitos, invertendo caminhos, construindo novas estradas. Que ao invés de conceitos, concebia-me sentidos. Ao invés de explicações, concebia-me o coração que pulsa fortemente ao ver teu ar cruzar com o meu. Ao invés da razão, constante e tediosa, deu-me o sentir, inquebrável e transparente, como um diamante e tua alma.”
Metafrasta, Maria Clara Beta.
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❝Escreveu-lhe uma carta apaixonada e extravagante, condizente com sua suposta loucura, mas entremeada de algumas frases meigas e afetuosas, suficientes para mostrar à suave donzela que ainda a amava entranhadamente, e em que lhe pedia que duvidasse de que as estrelas tivessem luz, de que o Sol se movia ou de que a verdade fosse verdadeira, mas que nunca duvidasse de seu amor.
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Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti